12/12/2015

Peripatética on line

O silêncio das redes sociais é avassalador. Suportá-lo exige sabedoria. Os momentos frente a uma caixa de postagem , aquele kairós – o instante do gesto irreversível – intrínseco ao botão de confirmar a postagem precisa ser respeitado. Um fato surpreendente aconteceu na última quarta-feira quando Luciana Genro, que foi candidata à presidência pelo PSOL em 2014, fez uma série de postagens, numa delas defendendo a antecipação das eleições presidenciais para 2016. Uma bobagem colossal que joga na lata do lixo o desempenho brilhante que ela teve no ano passado e que fez muita gente parar para pensar, mesmo que não a tenham confiado com o voto. E ela não é a única. Quantas pessoas não perderam emprego, amigos ou reputação por um gesto precipitado, impensado, infrutífero na internet?  Um gesto de quem não sopesou a consequência da palavra pública. Esse, aliás, é um tema que merece reflexão. Como a palavra circula publicamente nestes tempos de redes sociais?
Em um passado recente eu assumi uma posição militante no Facebook, no sentido de amplificar certas informações que eu sabia serem sonegadas pela grande mídia. Principalmente fatos e informações referentes aos políticos dos partidos apoiados pela Rede Globo, pelo Grupo Bandeirantes e pelo Grupo Abril, que são os grandes formadores de opinião no nosso contexto nacional, ainda que em crescente descrédito. Eu acreditava que poderia estar “ajudando” algumas pessoas que me seguiam na rede social a ter mais informação e que este aumento no seu repertório informacional os permitiria tomar decisões partindo de um julgamento mais sofisticado da realidade e não meramente pela manipulação emocional e pela alienação estimuladas pela grande mídia.
Mas nesse movimento eu também me vi por vezes compartilhando informações que depois se mostraram infundadas e tive, eu mesmo, de melhorar meus critérios de quando confiar no conteúdo.  Certos sites excessivamente (porque um pouco quase todos são) financiados pelo governo trabalham numa perspectiva pouco rigorosa de alardear fogo em qualquer fumaça e isso não favorece nem mesmo o campo da esquerda. Quando você não tem o renome de ser confiável - como o Jornal Nacional, por exemplo, que vem utilizando esse renome justamente para poder ser o contrário - você tem que redobrar o cuidado com a sua informação. Alguns sites não tomam este cuidado. Se eu tivesse parado e refletido um pouco antes de compartilhar, teria provavelmente me poupado do arrependimento.
Em outras oportunidades, contudo, a razão do equívoco não foi a ignorância ou o desconhecimento. Mas algo mais íntimo, mais difícil de domar, uma urgência, uma angústia, algo que se move lá do fundo e que pede para ser expresso e que fez com que eu por diversas vezes sentisse a necessidade de escrever algo, em geral críticas ao campo da direita ou do oportunismo político - que não é nem direita e nem esquerda propriamente, mas pura malandragem eleitoral para distribuir benefícios financeiros entre poucos, como é o caso do PMDB no Rio Grande do Sul e no Brasil, os últimos acontecimentos que o digam.
Não que eu considerasse que escrevi algo errado. É que ficava uma pergunta: - Será que era mesmo necessário eu ter dito isso?
Essa compreensão de que a palavra pública não pode responder apenas a uma necessidade interna, mas que ela tem que se fazer útil aos outros, à coletividade, é algo que a internet vem apagando. Os fóruns, as redes sociais, as caixas de comentário. O que as pessoas escrevem nesses lugares? Será que é realmente algo que se dirige ao outro ou é pura verborragia? Vômito de opiniões no meio do passeio público?
Uma das coisas mais interessantes da leitura do curso “A hermenêutica do sujeito”, que Foucault proferiu em1982 é a sua descrição das relações entre o exercício democrático e a prática filosófica. A democracia ateniense na Grécia aconteceu de maneira inextrincavelmente articulada ao exercício filosófico dos seus cidadãos, ou seja, decidir sobre os destinos da polis era algo que se fazia ao mesmo tempo e de maneira imbricada com a permanente reflexão sobre o sujeito, reflexão ética ou ético-político-filosófica, portanto.  Nesse  sentido, para que um sujeito falasse nas assembleias, para que ele se pronunciasse na Àgora, era esperado que ele tivesse realizado uma série de “exercícios sobre si”, um processo que eles chamavam de paraskeué  e que consistia tanto em saber sobre o mundo, estar informado sobre ele, sobre seus aspectos objetivos (mathesis), como  em fazer um exercício de autoconhecimento, de renúncia, de controle das paixões (akesis ou ascese) que permitiria transformar o conhecimento (logoi) em um modo de ser (ethos).  É nesse contexto que Sócrates colocou sua filosofia a serviço dos cidadãos, ajudando-os a se interrogarem permanentemente sobre o destino que eles estavam dando as suas vidas. Na sua peripatética – caminhadas que ele realizava com seus discípulos nos campos que circundavam Atenas – Sócrates  buscava desestabilizar as crenças que conduziam a vida pública dos promissores jovens atenienses, os quais viriam a ter importância nas assembleias, como foi o caso de Alcebíades, muito comentado por Foucault nesse curso.
Isso ajuda a esclarecer não o conceito, mas o funcionamento da democracia ateniense. Era o modo de governo em que qualquer um (homem e cidadão ateniense) poderia defender opiniões e votar. Mas o modo como funcionavam os debates e a votação era atravessado por uma série de regras e de normas tácitas de comportamento que se pautavam por um valor mais amplo que podemos chamar de sabedoria ou instrução (instructio era a palavra que Sêneca utilizava para se referir à paraskeué). Era esperado que as pessoas que falavam em público e que construíssem os consensos ou os dissensos fossem pessoas sábias, capazes de controlar os impulsos, de saber ouvir – o que era condição necessária para saber falar. Enfim, pessoas que tivessem se colocado numa posição de aprendizagem contínua e não como pragmáticos movidos por interesses.
Os anos de tirania que vieram com o declino helênico e com a Idade Média e depois esse período de democracia representativa que estamos vivendo produziram uma separação entre as dimensões política e filosófica. Votar em governantes e defender posições a respeito de temas públicos tornaram-se atividades que passamos a fazer de maneira independente e mesmo afastada das reflexões sobre nós mesmos e sobre nossas  vidas. Essas questões de ordem “privada” as endereçamos ao psicólogo, ao padre ou as abafamos com medicamentos. Não são questões que associamos com a vida coletiva. Nesse contexto, a conversa nas redes sociais, por mais que trate de temas políticos parece ter perdido um caráter político, já que ali não há mais escuta, consideração sobre a posição do outro, interesse em construir juntos uma vida mais interessante. Há apenas defesa surda de pontos- de -vista, quando não apenas a defesa de interesses rasteiros e narcísicos: o meu emprego, o meu imposto, a minha segurança, a minha propriedade, etc.
Eu acabei mudando minha relação com as redes sociais. Esse blog já é uma consequência disso. Principalmente porque percebi que não é informação, apenas, o que faz falta na vida das pessoas. Faltam espaços de reflexão em que as opiniões possam ficar um pouco em suspenso e em que possamos deixar respirar outras Inteligências, outras sensibilidades que nos ajudem a olhar para a vida de modo diferente. Buscar informar-se sobre outras perspectiva que não  aquelas que convêm aos “barões da mídia” vem como uma consequência disso.
Vamos descobrindo que o espaço público sem a experiência dos espaços grupais, das frater, do espaço da amizade no qual as opiniões, assim como outras sensibilidades podem ser ensaiadas  no sentido de colocarmo-nos no caminho da instructio ou da paraskeué , carece de potência e se torna uma câmara de eco que devolve apenas a própria voz desesperada do falante.

12/04/2015

Os intelectuais e o lado negro da força


Eu lembrei recentemente de um fato curioso da minha infância. Nos idos dos anos 80, eu tinha por volta de uns 10 anos e, consequentemente, meus pais já iam pelos 30 e poucos, ou seja, menos idade do que eu tenho hoje - curiosa precessão do eixo geracional.  Naquela época minha mãe e meu padrasto tinham um círculo de amizades muito ligado ao meio artístico, ele tinha sido diretor do Auditório Araújo Vianna por alguns anos. Na convivência com aquele grupo, me chamava a atenção uma das pessoas que trabalhava no Araújo. Sempre de preto. Maquiava os olhos de preto, usava uma touca preta, e coturnos pretos, etc.. Um dia eu perguntei para a minha mãe: "Por que ele se veste assim?". E a minha mãe respondeu: "Porque ele é dark". Na época não se chamava de gótico. E eu, logicamente, na multiplicação dos porquês: "O que é dark". E ela respondeu: "São pessoas que estão tristes". Eu lembro que  fiquei insatisfeito com essa resposta, porque ele não me parecia uma pessoa triste. Ele era sempre sorridente para mim. E eu via-o rindo com os amigos quando faziam roda para compartilhar um cigarro enrolado*.

Atualmente, as aparências têm me enganado de uma maneira ao mesmo tempo similar e diferente àquela da minha infância.  Eu vejo alguns rapagões tatuados, de calça puída, camisa de banda, e outras bossas, tudo indicando aquilo que na minha adolescência apontava para uma pessoa interessante, no mínimo, porque não estava plenamente confortável com a norma, com o senso comum, com o bom senso. Sem querer romantizar a juventude transviada do passado que, sem dúvida, também era machista, homofóbica, bairrista entre outros conservadorismos. Pelo menos, aquela geração, em algum campo da vida, tinha encontrado uma luta para ser lutada: contra o governo, contra o poperô** (só quem já dançava no final dos 80 vai entender), contra a dominação cultural norte-americana, etc. O que vejo por trás da aparência roqueira e outras estéticas juvenis contemporâneas - vale também para as barbas e suspensórios hipsters - é que frequentemente não há enfrentamento algum; apenas inscrição grupal, registro identitário. Como se a aparência física e o vestuário não tivessem significado maior que o avatar de perfil de uma rede social virtual. São jovens que poderiam facilmente estar segurando o tchan ou dançando na boquinha da garrafa com suas botas de bico fino e calças justas.

Remetendo essa problemática para o campo em que eu tenho atuado, lembrei-me de um texto chamado "Os intelectuais e o poder". Uma conversa entre dois grandes pensadores, Michel Foucualt e Gilles Deleuze, a propósito das relações entre aquilo que eles faziam -  produzir pensamento, ensinar, escrever livros, dar conferências - com o Estado e suas seduções conservadoras, por um lado, e, por outro, a revolução e suas adesões incondicionais. Qual o lugar de um pensador?  Qual sua função dentro das lutas que não são mais apenas contra a exploração, mas também contra os abusos dessa coisa mais difusa e mais intercambiável que é o poder? Ou seja, qual o lugar do intelectual frente às relações de coerção, mas também de incitação e de condução, enfim, de movimento sobre o movimento, de ação sobre a ação, exercidas não apenas no contexto do patrão e do empregado, das classes dominantes e dos explorados, mas no nosso cotidiano familiar, conjugal, de trabalho, do trânsito, da circulação nas cidades. Enfim, em todos os espaços em que certas condutas sejam mais convenientes que outras e em que a escolha por essa conduta mais desejável deva ser conquistada, não ao preço exclusivo da força bruta que caracteriza a exploração ou a dominação, mas das tecnologias mais sutis que caracterizam o poder e que não pertencem de direito a ninguém, sendo exercidas de fato por qualquer um que as circunstâncias ensejarem.

 É aqui que o intelectual pode estar com uma aparência, uma estética libertária, anticapitalista, contra-dominante, mas no conforto de sua inscrição grupal, efetivar práticas que de modo algum confrontem as estruturas que lhe conferem essa posição social. Isto é, no dia-a-dia, o intelectual, a despeito dos conceitos com que ele trabalha, dos autores que lhe acompanham, da sua posição na roda-dos-ventos da política, age como o patrão, como o presidente, como o diretor, enfim, como o chefe.

Em outro texto, "O tratado de nomadologia", Deleuze, junto com Guattari, escreveu que o intelectual é sempre acossado pela sedução de tornar-se um "pensador de Estado", alguém que oferece suas produções de pensamento, seus discursos, para reforçar essa estrutura conservadora e hierarquizante que é o Estado e que tem essa capacidade ressonante de fazer com que os poderes locais, cotidianos, isto é, o poder na escola, na família, no trabalho, na cidade, etc.;  sejam alinhados ao seu princípio racionalizador e a sua lógica representacional (sempre falando em nome de alguém).

Nesse sentido, precisamos colocar em análise os modos como nos posicionamos nessas circunstâncias que permitem que um professor, um escritor, um cronista, um jornalista, um formador de opinião pública fale em nome de alguém.  E é preciso não falar em nome dos outros, Deleuze e Foucault alertaram-nos. É preciso ter a capacidade de colocarmo-nos ao lado dos coletivos nas suas lutas e não na retaguarda. E colocar-se ao lado nas lutas significa também que não se pode chegar a vencer completamente nenhuma luta, pois as lutas se proliferam durante o lutar e não se deixam totalizar numa grande e unificadora vitória. Assim a luta de classes se desdobra na luta por reparação pela injustiça racial, e esta se desdobra na luta feminista, e esta frequenta, porém não se resume à luta de gênero, Porque as lutas também se embatem entre si. O multiverso das forças sociais, diferentemente das teorias não trabalha numa lógica concêntrica, mas também excêntrica, por vezes, até numa lógica de confronto.

Essa insistência do não resolvível, de um primado das forças sobre as formas, para trabalhar num vocabulário nietzschiano, de alguma maneira, faz com que a posição do intelectual me pareça ter a ver com a tristeza do dark  - aquela que na minha infância eu não consegui compreender. Uma tristeza que não é da ordem do humor, mas da política e que, portanto, não se opõe à alegria, e, sim, ao contentamento. A tristeza como o horizonte de uma luta permanente, em oposição ao contentamento como a antecipação da vitória.

Afinal, é isso que o capitalismo produz. Faz de toda a alegria uma mera antecipação, desfrute emprestado de uma vitória nunca alcançada. Todo objeto consumido é apenas um objeto parcial que permite o vislumbre da alegria que teremos quando de fato tivermos dinheiro para comprar tudo aquilo que queremos. Toda a conquista profissional é apenas um pálido reflexo daquela conquista que de fato será importante. Todo amor é apenas o ensaio de um amor mais-que-perfeito, e assim por diante.



Antídoto contra essa antecipação, a tristeza política (não a do humor) é, paradoxalmente, tal como o Bóson de Higgs que dá massa à matéria, aquilo que dá gravidade à nossa alegria e espanta seu caráter frívolo. Só pode ser verdadeiramente alegre aquele que se deixa habitar por essa tristeza.



Em outras palavras, desconfie de um intelectual contente.






*Licença poética. Os cigarros enrolados não eram fumados na minha frente.



** Hey, pump the jam, pump it up (poperô). Refrão da música da banda Techotronic que explodiu o bate-estaca nas pistas brasileiras.

p.s.: Muitas pessoas comentaram que acharam os meus textos anteriores “pesados”. Então resolvi escrever essa pluma de plomo.

11/26/2015

A vida no campo



Não me recordo quando foi a primeira vez que escutei alguém se referindo a suposta "covardia" dos judeus durante o holocausto. Como uma população inteira - os encarcerados nos campos de concentração - numericamente muito maior do que seus algozes - os relativamente poucos soldados que vigiavam os campos - deixaram-se abater como gado nas câmaras do horror? Sabendo que o destino certo é a morte, por que não reagiam? Por que não se rebelavam? Decerto que alguns morreriam, mas a grande maioria sobreviveria.

Na época esta pergunta me pareceu razoável e eu cheguei a acreditar nas especulações sobre um traço passivo, vitimista do povo judeu, da opressão coletiva que remonta ao Egito antigo até a psicanalizável e cômica opressão superegóica e burguesa estilo Woodie Allen. Mas não. Tão ruim como o artifício da psicologização é o da culturalização. Remeter os fatos sociais ao indivíduo ou à cultura é, no mais das vezes, subtraí-los de sua potência política.

Os psicólogos norte-americanos criaram o conceito de bystander effect ou efeito da inércia do observador para falar da passividade do indivíduo frente ao coletivo. O estudo teria se originado em função do assassinato de Kitty Genovese uma nova-iorquina de 28 anos que foi atacada por um maníaco, em 1964, quando voltava para sua casa no Queens às 3h da manhã. O ataque durou uma hora e meia, durante as quais ela gritou por ajuda e lutou para evitar um estupro. Luta que venceu ao preço de ser assassinada com diversas facadas. Tudo isso em frente a um prédio no qual 38 testemunhas assistiram ao evento, cada um acreditando que o vizinho já tinha chamado a polícia. Nesse período Kitty chegou a fazer o homem fugir com seus gritos, mas ao ver que a polícia não chegava o homem voltou e terminou de matá-la enquanto ela rastejava na direção da sua casa.

Na época o senso comum se orientou na direção de uma moralização das pessoas que teriam se degenerado pela vida nas grandes cidades e já não tinham empatia com o próximo. Nova Iorque, a gigante de aço e concreto havia devorado a humanidade dos seus habitantes. Então Darley & Latané empreenderam uma série de estudos para compreender o que havia ocorrido. Em um deles, os psicólogos deixavam no chão um pacote de cartas daquelas que as ONGs enviam solicitando auxílio financeiro. O pacote ficava no chão próximo a um posto de coleta dos correios, como se acidentalmente tivesse caído. Perder uns segundos se abaixando para juntá-la equivaleria a ajudar no bem-estar das crianças famélicas do terceiro mundo (a época os mundos eram classificados ordinalmente e não dinamicamente). A intenção era comparar transeuntes das grandes cidades com os das pequenas cidades, a fim de averiguar quais juntariam o pacote e colocariam no coletor e quais ignorariam o fato. Os pesquisadores acabaram por concluir que não havia diferença significativa entre o tamanho das cidades, se pequenas cidades do interior ou grandes capitais metropolitanas, mas, sim, entre o número de pessoas que havia no local, se numa rua deserta ou num centro cheio de transeuntes. Quanto mais movimentado fosse o local, menor a chance de o pacote ser juntado e colocado no coletor. Em resumo, o bystander effect é um princípio que fala que a dificuldade que temos de tomar iniciativas é diretamente proporcional ao número de pessoas que compartilha a experiência.

Voltando aos campos de concentração, não acredito que o bystander effect sirva para explicar a ausência de rebeliões. Aliás, o que aprendemos com Walter Benjamin a respeito da história é que ela é contada na versão dos vencedores e com Michel Foucault que as lutas, os burburinhos, os conflitos, os disensos ficam nos escombros da história soterrados pelo senso comum e pelas verdades reificadas dos saberes científicos e disciplinares. Certamente houve lutas, houve transgressões, houve revoltas em diferentes níveis, inclusive os cotidianos e micropolíticos, das quais não ficamos sabendo seja porque os rebeldes foram massacrados pela bala, pelo gás ou pela narrativa simplificadora que fica mais confortável e dá mais roteiro de cinema sob a forma da grande libertação promovida pelos yankees.

Mas há uma razão mais elementar para que não tenhamos notícia de uma fuga em massa de judeus, de um amotinamento de grandes proporções nos campos de concentração: é que a nossa capacidade de ter esperança é infinitamente maior do que a nossa disposição para o sacrifício. É muito mais fácil trocar a possibilidade de sermos o último a morrer do que a probabilidade de ser o primeiro. Mesmo que no final uma grande maioria se liberte, a probabilidade de que a vanguarda da rebelião seja assassinada é enorme. Somos doentiamente otimistas falava Nietzsche. Vivemos o tempo do amanhã, não importa o preço que seja cobrado pelo tempo do hoje. Não foram os judeus covardes nos campos de concentração, pelo menos não mais do que todos nós a cada dia.

Vejamos a nossa dimensão econômica. Sabemos que o capitalismo financeiro internacional funciona pelo sequestro do capital produtivo. O dinheiro torna-se caro se investido na produção agrícola ou industrial, por exemplo, quando comparado com os lucros auferidos na compra de títulos de governos como o nosso, que remunera exorbitantemente o capital. Remuneração que os governos precisam amealhar através de impostos justamente do empresariado, da classe média e, sobretudo, dos pobres, que proporcionalmente são os que mais pagam impostos. O capital financeiro especulativo faz toda a dinâmica da sociedade trabalhar para recompensar os seus detentores que são, por sua vez, megacorporações e superbancos com seus investidores que representam percentualmente uma ínfima parcela da população mundial. O Brasil gastou, em 2014, 978 bilhões com a dívida, percentualmente isto significou 45,11% das suas receitas. Tudo isso para se manter num jogo no qual pode apenas perder.

É um verdadeiro esquema internacional de pirâmide, o que interessa é que os debaixo nunca deixem de pagar seus compromissos, pois quando um deixa de pagar, o que está acima também fica inadimplente e assim sucessivamente, uma hora chega no topo e a festa acaba.

Eu lembro daquele esquema de pirâmides que era moda nos anos 80: a Amway. Sempre tinha alguém que supostamente estava ganhando muito dinheiro e uma maioria que nada ganhava, apenas gastava. A recompensa, porém, era a de que “os produtos eram muito bons”. Então esses esquemas de pirâmide funcionam mais ou menos assim: o país de vocês vai gastar muito com o pagamento da dívida; vai se manter sempre dependente do capital especulativo; vai estar sempre à mercê das crises; mas tem uma recompensa: vocês de tempos em tempos terão dinheiro para financiar a economia com crédito para a classe média comprar carro, comprar geladeira, mesmo que para isso pague juros também estratosféricos. De vez em quando uma crise chega e o dinheiro some do mercado, mas sejam otimistas, logo passa.

Todos os governos, não apenas o da Grécia, sabem disso. E sabem que esse ciclo está se dirigindo para uma exaustão de recursos naturais e da vitalidade dos coletivos, especialmente nos países que estão abaixo na pirâmide (é o caso do nosso, a despeito do seu tamanho). Mas quem quer ser o primeiro? Quem vai ser massacrado pela quebradeira dos bancos, pelo desabastecimento, pela inflação, pela violência das ruas que sempre se segue a um colapso financeiro?

E nós, classe média, queremos mesmo que o país audite a dívida, decrete moratória, saia dessa armadilha? Ou preferimos ficar torcendo para sermos os últimos a perdermos o conforto do nosso cárcere pequeno burguês?

Aí é que entra um outro fator também negligenciado nas análises psicologizantes ou culturalistas. É o fator do dispositivo, do artifício, da imbricação entre a disposição material do mundo e sua experimentação subjetiva. O medo de tomar a vanguarda do motim também se devia ao isolamento disciplinar dos campos de concentração, à distribuição das vantagens. Os mais trabalhadores morriam por último. Os que mantinham sua cela mais limpa. Os que faziam menos barulho. E havia chefes para cada cela. E cada cela era como uma unidade familiar e ao mesmo tempo uma unidade de trabalho. Em suma, havia toda uma tecnologia de administração da vida em coletividade que funcionava a propósito de inibir as solidariedades horizontais, as paixões coletivas.

Trata-se de um paradoxo no qual há uma ausência de norma no sentido mais geral - quem está dentro do campo de concentração não está protegido pela lei dos homens. Mas na ausência de lei geral imperam inúmeros regramentos internos que emulam a sensação de um estado legítimo. Esse é o modo pelo qual a sociedade disciplinar, tal como pensada por M. Foucault, se conjuga com os Estados de Exceção para constituir o que Agambem chamou de “o campo como paradigma biopolítico moderno”, no seu livro O homo sacer.

É o que acontece nas comunidades pacificadas do Rio de Janeiro, onde as pessoas estão na exceção do direito de ir e vir expressos na constituição, mas inseridas em uma séria de regras de validade local: jovem não pode circular na rua depois das 24h; não pode ouvir música funk; não pode usar capuz, etc. É o que acontece nos campos de refugiados, nas prisões, e também na cidade, onde uma selvagem exploração imobiliária desconhece planos diretores, proteções ambientais, mas multiplica cancelas, catracas, câmeras de vigilância.

Para concluir, é interessante notar que esse funcionamento paradoxal é o do próprio capital financeiro. O dinheiro no século XXI não conhece regra, lei ou constituição global. Não há amarras para a sua circulação, nem compromissos com o que ele financia: armas, drogas, prostituição. O dinheiro é o verdadeiro desejante amoral, o verdadeiro isso (id) de que falava Freud. Circula quando e por onde quer, não importa se na sua saída deixe um rastro de fome e desemprego e se na sua chegada derrube proteções trabalhistas ou investimentos sociais. Mas uma vez que o dinheiro está “estacionado” no mercado de um país ele multiplica obrigações no eixo descendente: todos abaixo dele devem se comportar com austeridade fiscal, com produtividade, com metas, com certificações de qualidade.

Somos piores do que os vizinhos de Kitty Genovese, estamos assistindo ao assassinato e não percebemos que as facadas já perfuram nossas costas.

11/19/2015

O pequeno odiador na internet


O anglicismo "hater" tem sido amiúde utilizado no vocabulário da chamada "geração y" para aludir ao usuário, frequentemente anônimo, que comete seus comentários agressivos, impulsivos e intolerantes nas redes sociais e nas seções de comentários de blogs, fóruns e sites de informação.

Mas pelo menos, nesse caso - consignando que não compartilho do patriotismo lusófono do nosso ex-ministro dos esportes, comunista do Brasil e antigo preposto dos interesses governamentais com a FIFA e vice-versa, (shame on you) Aldo Rebelo - a palavra em inglês não desperta todo o odor visceral que o neologismo "odiador" traz, ainda porque, em português a palavra termina doendo. Uma dor que fere de dentro para fora, escatologicamente emerdando (também não sou contra galicismos) o mundo com as frustrações, medos, angústias e outras maldades que o ser humano exercitava apenas em segredo ou na relação com o próximo, privadamente descontando nos subalternos, no cachorro, no trânsito, na autopunição anal-retentiva, judaico-cristianamente seguida da culpa redentora.

O que assusta nestes tempos em que vivemos é que, sem substituir esses mortíferos rituais privados, o odiador tornou-se uma personagem aceitável na nossa vida pública. A expressão da opinião pública, sob o ponto de vista da crítica, da fala cidadã, adquiriu essa qualidade maléfica, essa toxicidade, essa forma débil e infantil . E por infantil não me refiro às crianças que injustamente pagam a conta pela nossa necessidade de desqualificar o adulto. Refiro-me à derivação etimológica infante*, ou seja, o ponta-de-lança do batalhão, aquele que corre na frente no campo de batalha, o que morre antes.

Por isso pequeno. Não é que odiador na internet seja menos importante, ao contrário. É que diferentemente do grande odiador, tipo Bolsonaro, tipo Feliciano, tipo Malafaia, o pequeno odiador conta-se a granel, no atacado e não no varejo, conta-se em quantidade. Em si, cada um é dispensável, mas no todo é essa infantaria do ódio que dá condições de possibilidades para que estes bufões da opinião pública ganhem atenção muito maior que sua capacidade intelectual e argumentativa permitiria. Os pequenos odiadores abrem caminho para interesses rasteiros, tais como o shopping do Cunha, a isenção de impostos das igrejas ou o veto a políticas progressistas como o kit anti-homofobia prosperem. Ocupando a sala de estar com os ruídos de banheiro, o ódio silencia a discussão sobre as pautas democráticas e coletivas, sobre o Estado que queremos construir juntos. Essa prática miúda e cotidiana do ódio na internet impregna a esfera pública de veleidades narcísicas, isto é, de como o Estado deve retribuir meus méritos e proteger meus interesses: sou tão macho que os outros têm "heterofobia" de mim; se enriqueci sem ganhar bolsa, porque os outros têm de ganhar?; por que tenho de pagar imposto para sustentar quem não se esforça?; e se o meu filho virar gay porque viu dois homens se beijando?; de que adianta trabalhar e acumular se o Estado não investe em polícia para proteger o meu patrimônio?; e tirem esses vagabundos ciclistas do caminho para eu passar com o meu carro, etc..

Na versão simplória do liberalismo que o pequeno odiador professa, não se trata de que o Estado não invada meus direitos privados, mas de que o Estado seja colocado para funcionar em defesa dos meus interesses privados, contra o direito dos outros!

O pequeno odiador na internet não gosta do bolsa família, tem ojeriza ao auxílio reclusão, está preocupado com os investimentos brasileiros em Cuba, na África e na Venezuela (não porque o Brasil tenha uma política imperialista, mas porque erradamente entende esses investimentos como ajuda bolivariana). Logicamente o pequeno odiador na internet é contra as cotas raciais porque as considera preconceituosas e contra as sociais porque acha que o pobre se acostuma com as facilidades e fica mais preguiçoso. O pequeno odiador na internet não tem opinião formada sobre a dívida pública ou sobre a progressividade dos tributos. Acha esses assuntos muito complexos e "político é tudo ladrão". É contra impostos, mas não se interessa em debater a distribuição da carga tributária. O pequeno odiador na internet não se interessa pela curva da concentração da renda no mundo e pela fuga do capital produtivo para o capital especulativo. O pequeno odiador na internet se acha muito perspicaz quando diz que "direitos humanos são para humanos direitos" e que "bandido bom é bandido morto". Mas quando o pequeno odiador na internet se acha mesmo inteligente, ele faz piadas sobre os pelos ou sobre o cheiro das feministas. De vez em quando, ele se empolga com as metáforas capilares e deixa escapar um macaco ou um fedorento (originalidade não é seu forte) para algum negro ou negra. O pequeno odiador na internet frequenta perigosamente o terreno da injúria e às vezes superestima sua própria habilidade para nele transitar.

É curioso, porém explicável, que o pequeno odiador na internet seja muitas vezes uma pessoa agradável no trato pessoal, diria até: uma pessoa boa. O pequeno odiador na internet pode ser uma pessoa com um grande coração. Reza à noite com uma fé genuína. Olha nos olhos da criança pobre com sincera comiseração. É cavalheiro com as mulheres - para ele todas as mulheres merecem ser tratadas como a sua mãe. O pequeno odiador pode até ter amigos negros para os quais ele sempre diz que não é racista e que até já sofreu de racismo da parte de negros contra ele: chamaram-no de branquelo. O pequeno odiador até "respeita" os gays, mas... O pequeno odiador adora o "mas". O conectivo de oposição é aquele alarme que soa do fundo milimétrico da sua consciência crítica dizendo: não confia nos teus sentidos! Não dá vazão a esse instinto! Não te deixa levar! Preserva tua posição infante! Desertar jamais!

O problema da bondade do pequeno odiador é que ela é simples, rasa, tola, talhada no tatibitati das histórias infantis e nos sermões da vovó. Uma bondade sem luta, que não foi conquistada ao preço de um dilema de consciência, ao preço de uma interrogação ética, ao preço do estranhamento de si, ao preço de uma paixão louca e, por isso mesmo, uma bondade sem densidade, sem peso, facilmente abandonável quando no anonimato de uma página da internet depois da novela.

O ódio do pequeno odiador não é um traço de personalidade, mas uma prática política, um modo de habitar a esfera pública e de laborar nela, de trabalhar para construir um mundo, e é assim que ele deve ser tratado e por isso que não devemos olhar para esse fenômeno como um efeito colateral da tecnologia. Devemos, antes, nos interrogar sobre quais forças atuam para que a tecnologia da comunicação em rede tenha sua potência cooptada para um exercício pequeno, baixo, do discurso.

Essa interrogação abre uma importante trilha para ser seguida e muitos têm ajudado a pensá-la. Não tenho a pretensão de oferecer alguma resposta. Provisoriamente, contudo, me questiono se não contribui nestes sentido uma certa modalidade jornalística que vem sendo alimentada por uma tradição de crônicas intestinais assinadas por nomes como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Olavo de Carvalho, e aqui no Rio Grande do Sul: Diego Casagrande e Políbio Braga, só para citar alguns dos mais conhecidos. Um jornalismo que mescla um tom emergencial, acusatório, ao mesmo tempo profético (vai acontecer, vai acontecer: a queda, a renúncia, o confisco, o golpe) e desencantado (não tem jeito somos enganados, o governo é corrupto, a oposição é fraca). Enfim, um jornalismo maniqueísta que vem se ocupando de simplificar, de traduzir em linguagem binária, polícia e ladrão, mocinhos e bandidos, os meandros de uma esfera pública atravessada por múltiplos interesses (inclusive o dos patrões desses jornalistas) e por sentidos coletivos construídos historicamente na base de muito diálogo e de muitas controvérsias.

A internet surgiu com a promessa de possibilitar construções coletivas de sentido para além dos guetos comunicacionais: a academia, o sindicato, o partido, etc. Reconquistar essa potência é um desafio à nossa geração. Eu tô nessa. Por isso começo essa seqüência de crônicas com esse tema. Certamente o pequeno odiador não é a única personagem dessa trama. Tem o irônico, o financiado pelo governo, o ingênuo, o "jesus está vendo", e tantos outros.

Sartre encerrou sua peça "Entre quatro paredes", que trata de três pessoas que morrem, vão para o inferno e este é apenas um quarto fechado e não um caldeirão sulfuroso, com a frase: - O inferno são os outros. A internet tem uma potência de praça pública, de rua, de amplidão, confundi-la à privacidade do quarto ou ao escritório de onde a acessamos é desperdiçar nossa capacidade herética**.


*Infante: significava em latim a criança que não fala, mas caminha e daí derivou-se a infantaria e seus infantes, ou seja, os soldados que caminham à frente na batalha e obedecem sem contestar.

** Heresia: a palavra te origem no grego haíresis e significa: capacidade de escolher