2/20/2017

Atravessando o Rubicão



Recebi uma excelente indicação bibliográfica do meu querido amigo e mestre Luis Antônio Baptista, com a gentileza que lhe é característica, e resolvi ler nas férias o livro "A virada", de Stephen Greenblat, sobre a descoberta do manuscrito antigo De Rerum Natura, de Lucrécio, durante o humanismo renascentista. Uma das passagens que mais me impressionou é a percepção, por parte do autor, de um momento de ruptura do pensamento antigo para o medieval.
Bem antes da queda de Constantinopla, o autor situa como um ponto crucial de transformação entre o paganismo greco-romano e o universalismo judaico-cristão o declínio do riso, do escárnio, helênico sobre a rudeza cristã. Idiomas de parca tradição literária à época, o hebraico e o aramaico no qual o pensamento de Cristo foi construído, comparados com o grego de Homero, Eurípides e Sófocles; e o latim reinventado por Virgílio, Cícero e Lucrécio; eram apenas capazes de dizer as coisas de uma forma bruta, simplificada, desinteligente aos olhos de um patrício romano educado na tradição filosófica e literária da época. Daí que a fala de um cristão antigo soava como estupidez, estultice, fala de camponeses e de pastores, de gente da qual se fazia melhor uso alimentando os leões.
Por isso, segundo o autor, é quando a fala pública do cristão: com sua retórica direta sem as figuras de linguagem, o ritmo e a ênfase musical do latim literário; professando um mundo cindido em céu e inferno; clamando por renúncias desedificantes – muito diferente das renúncias do ascetismo estoico que valorizavam a experiência, os cristãos desvalorizavam o corpo e a singularidade, em nome de uma redenção universal extracorpórea, espiritual; enfim, quando essa fala considerada “burra” há apenas algumas décadas, de repente começa a ser uma fala pública aceitável; é aí que a antiguidade fica para trás, ou seja, o assassinato de Hipátia e o incêndio da biblioteca de Alexandria como fim do caráter público do paganismo, e, mais tarde, a queda de Constantinopla invadida pelos otomanos, tudo isso são apenas a efetivação de um processo que começava a ser forjado dentro dos regimes de aceitabilidade muitos anos antes ainda no Império Romano pré-bizantino.
Pois nós também estamos tendo a possibilidade de sermos contemporâneos de um processo similar. De repente a defesa de atrocidades como o acorrentamento e tortura públicas de um jovem negro que cometeu um roubo passa a ser dizível em voz alta. Não que isso não estivesse acontecendo o tempo todo ou que esses discursos não frequentassem os pensamentos silenciosos e os círculos restritos. Mas agora as pessoas passam a dizer em público, em voz alta, o quão a favor do assassinato elas são, e isso não é apesar de serem “boas pessoas”, mas ser a favor do linchamento é, justamente, o que as torna “boas pessoas” e não cúmplices como os defensores dos Direitos Humanos. De repente dizer que não gosta de pobre, que acha pobre fedido, que gosta mesmo é de gente rica, passa a ser tão aceitável que um candidato a prefeito diz isso em plena campanha e é eleito (talvez, em parte, por isso). De repente, dizer que políticas de equiparação racial, de gênero, de classe, são invenções de esquerdopatas. E que o mundo é “cão” mesmo é que “aqui é cada um por si”. Tudo isso passa a ser normal ou aceitável pelo senso comum e pelo bom senso.
Quem convive em redes sociais sabe do que estou falando.
Mas outras mudanças vêm ficando evidentes. De repente nos círculos acadêmicos, tal como no repúdio da virtude cristã sobre a frivolidade do esteta pagão, se começa a denunciar o quanto os discursos ditos pós-modernos são nocivos porque usam da confusão conceitual para enfraquecer os movimentos sociais. De repente, o pensador acadêmico passa a ser não apenas um reprodutor das injustiças históricas - o que, no final das contas, enquanto sujeito históricos todos somos em certa medida, e todos devemos lutar contra isso. De repente o intelectual acadêmico é um dos artífices das injustiças históricas. Porque fala demais, ele ilude. É um sofista que com sua retórica impede que a verdade empírica seja percebida. Ele ganha nos argumentos, mas perde em virtude, porque no final das contas ele está interessado na injustiça. Ele lucra com ela. Então ele deve calar.
E chegamos ao ponto em que não é mais razão de vergonha denunciar aquele que argumenta, justamente porque argumenta. É precisamente o fato de argumentar que constitui a sua falta. Sua condição argumentativa é fruto de uma injustiça histórica. A sociedade não distribui em igualdade o acesso à formação intelectual, portanto, se você a tem você deveria estar envergonhado, culpado por isso, deveria se abster de exibir sua cultura em público. Cada vez que você o faz, está violentando alguém que não recebeu as mesmas condições. Não importa se o seu discurso fala em nome das políticas de reparação social, das políticas afirmativas, não importa se, no fundo, você enquanto intelectual reconheça o seu lugar de privilégio e lute por um mundo em que ele não exista. Tal como um romano pagão, você adora os deuses errados. Não se prega a virtude adorando a Júpiter, não importa o conteúdo da sua pregações, assim como desde que lutada em nome de Jesus, qualquer guerra é sagrada. A oposição não é mais entre forma e conteúdo, só interessa a liturgia. Se você manipula os símbolos corretos, você está autorizado, e, meu jovem intelectual, acredite: os autores ditos pós-modernos não são mais os símbolos corretos! Não importa o que você diga através deles, você errou na ritualística. Você riu no velório. Recebeu o caboclo no bar-mitsva. Cortou o espaguete com a faca. Shame on you!
Atravessamos o Rubicão do dogmatismo acadêmico. Há simplesmente o que pode ser objeto de escrutínio intelectual e o que deve ser aceito em silêncio reverente. Há o que pode ser debatido e o que deve ser expiado sob a forma da culpabilização ou do transe fusional. Sinta-se culpado e cale ou ao menos se emocione, se comisere com as vítimas do sistema que lhe privilegia! O sentido não habita mais a fronteira entre o dizer e o sentir. O sentido agora é uma direção: aquele é o lado correto, todo o resto é inadmissível. Não há errância. Apenas erros e fiscais ansiosos por apontá-los. O sentido agora é uma ordem: pelotão, sentido!
Tal como o cristianismo foi um dispositivo que produziu mudanças importantes. É um dos elementos históricos que tornou inaceitável a escravidão, por exemplo. Passando por etapas em que conviveram harmonicamente, foi o cristianismo protestante inglês junto com o capitalismo industrial nascente uma das forças que atuaram mais energicamente para o fim do tráfico de escravos negros no século XIX.
Portanto, o declínio do beletrista pagão pode ter sido positivo no final das contas. Ou tudo poderia ter sido ainda melhor se tivéssemos tido a conservação da genialidade helênica junto da modernização que o universalismo e o humanismo cristão trouxeram no renascimento? Infelizmente a seta unidirecional do tempo não nos permite essa apreciação. Não dá para saber o que teria sido do mundo, se melhor ou pior (E melhor para quem ? Pior para quem?)se a fala cristã continuasse sendo alvo de desprezo, signo de fragilidade intelectual. E se o paganismo, o judaísmo e o cristianismo tivessem convivido globalmente tal como co-existiram em harmonia durante a Alexandria pré-Constantino? Não dá para saber.
Da mesma forma, há algo na sociedade que clama por mudanças. Certas injustiças como a das subjetividades brancas contra as negras, masculinas contra as femininas, heterossexuais contra as homossexuais, cisgêneras contras as transgêneras, de capitalistas e pequeno-burgueses contras proletários, entre outras, precisam mudar e, às vezes, a mudança não pede licença, mas bota o pé na porta, mesmo que para isso, faça vítimas não planejadas. Danos colaterais, não é assim que chamam?
Não há condições no momento para saber se tudo vai dar pé ou se a barbárie já está iniciando. Em todo caso, eu já decidi que minha alma é de beleza, de festa, de alegria e de gentileza e o fundamento disso é uma inexorável curiosidade de pesquisador, um encantamento pela matéria do mundo e uma relação bem resolvida com a incerteza. Portanto, essa guerra entre os justos e os degenerados, entre as pessoas de bem e os insensatos, vai me pegar distraído como um Arquimedes em Syracusa. Serei uma vítima casual? Um dano colateral? Ou um violinista no Titanic, aproveitando os estertores de um lirismo que está em vias de acabar?
Não importa. Esse é o único jeito como posso viver esse processo.Amor fati.
As multidões são turba como são as tempestades e as águas revoltas. Tudo nasce em incerta hora e incerto local, e pelo mesmo princípio se dissolve. Está aí a maior lição de Lucrécio. A matéria é filha de Vênus e pelo prazer cria e destrói. Mas o deus Ares só sabe da moral e da destruição.
Sou um Arquimedes. Até o fim me interessa a beleza suja dos grãos de areia e não a pureza ariana. Seja lá a forma ou cor em que ela se apresente.