Pode ser que Lula seja de fato o chefe da quadrilha. O
Brahma. O 9nine. Pode ser que não
haja viva alma mais honesta do que ele neste país. O mais provável: Lula é
exatamente, como a maioria dos brasileiros, um sujeito que acha errado roubar,
mas que é capaz de relativizar seus padrões morais quando se trata de aproveitar
alguns luxos.
Esta alternativa é a mais provável porque se ele fosse de
fato o mafioso que apontam, não estaria sendo investigado por conta de um
barquinho de 4 mil reais, 37 caixas de
bebida, uma reforma num sítio que não é dele e um triplex no Guarujá que está
longe de ser um Taj Mahal. Se fosse esse bandido sórdido que todos dizem,
estariam aparecendo contas na suíça rechedas com milhões, helicópteros
abarrotados de cocaína, desvios de merenda escolar ou outras maracutaias. E não
há de se dizer que ele não foi investigado ou que não haja interesse político,
judiciário e midiático para fazê-lo.
Por outro lado, também não é provável que ele seja a alma
viva mais honesta desse país, pela mesma razão de ter sido agraciado por
empresários com sítio em Atibaia à disposição, vantagens no desfazimento da
compra de um triplex - afinal, ele conseguiu reaver o dinheiro das cotas pagas,
o restante dos mutuários, não - além de outras benesses que hão de aparecer
enquanto o episódio eleitoral de 2014 estiver na pauta da imprensa. Porque, se
essas denúncias incessantes contra Lula não provam nenhuma ilegalidade – e isso
acabará sendo um erro crasso para quem quer acabar com a sua reputação e
inviabilizá-lo para 2018 – , elas demonstram, por outro lado, que o empresariado brasileiro corteja a classe
política e sabe mimá-la ao largo da moralidade, mesmo que para isso não
infrinja nenhuma norma escrita. Senão, vejamos aquele outro inconsolável
presidenciável que recebeu de presente de um banqueiro a lua de mel com festa e
hospedagem luxuosa em hotel nos EUA. Eventos estes que não estamparam capas de
revista de denúncia e nem espantaram a classe média brasileira.
É sobre isso que precisamos falar para entender o fenômeno
da demonização do Lula. Este é um fenômeno de classe média, justamente a classe
média que Lula sempre sonhou ser e que foi fruto da sua polêmica com a filósofa
Marilena Chauí.
Vamos revisar retrospectivamente, de modo bastante sintético,
os fatos. Marilena Chauí relatou em uma palestra cujo link para o vídeo segue
no final deste texto, um acontecimento ocorrido em São Paulo no qual foi agredida por uma típica paulistana classe
média. Então ela faz uma aula muito didática acerca das classes sociais, tais
como apresentadas por Marx. A classe dos capitalistas: aqueles que não precisam
trabalhar para viver, pois detêm os meios de produção e são donos das fazendas,
das fábricas, das grandes empresas, estabelecimentos comerciais e dos bancos. A
riqueza dos capitalistas é produzida pela classe operária, a qual trabalha nas
fábricas, nas empresas, nos comércios e nas fazendas. No caso dos banqueiros,
sua riqueza é produzida por todos os que tomam dinheiro por empréstimo. Um dos
acontecimentos fulcrais nesse debate sobre Lula e as classes sociais é que ele
aproximou o operariado do crédito bancário que, até então, era direcionado principalmente
aos pequenos burgueses. Esta classe, a dos pequenos burgueses, dentro da qual a
maioria dos que estão lendo este texto se situa, eu inclusive, composta pelos
pequenos comerciantes e pequenos empresários, pelos funcionários públicos e
pelos profissionais liberais.
Uma questão importante levantada por Marilena Chauí é que a
pequena burguesia encontra-se num impasse, já que ela não tem uma função
exatamente crucial na engrenagem do capital. Nem ela detém os meios de produção,
ela não é dona de nada a não ser de suas casas e seus carros, e nem sua força
de trabalho é indispensável. Se os pequenos burgueses se negarem a trabalhar, a
economia continua a funcionar mais ou menos como era antes, pelo menos nos seus
aspectos essenciais.
Frente a esse vazio de poder. Os pequenos burgueses
compensam esse déficit de força política, então, com algo que é igualmente
poderoso, ou seja, o poder da informação e da opinião. Os capitalistas não gostam
de mostrar a cara e falar em público, já que são em menor número e em geral
temem serem vistos como exploradores. Preferem ficar por trás da cortina. O
operariado, no mais das vezes com baixo estudo, com algumas exceções, não
consegue fazer uma leitura sofisticada da realidade ou expressar suas opiniões
adequadamente. É, pois, neste vácuo que se instala a pequena burguesia. Então o
que os pequenos burgueses acabam produzindo não é tanto os produtos ou os bens
do capitalismo, não é alimento, nem derivados de minério, nem vestuário, nem
objetos de consumo, o que eles (nós) produzem é o “modo de vida”. Os pequenos
burgueses dizem e/ou demonstram como é desejável viver e pensar. A moda, a
moral, a cultura, o consumo, essas são as dimensões por excelência da atuação
dos pequenos burgueses.
Pois bem, a classe média não é plenamente equivalente à
pequena burguesia. Pois a primeira é uma segmentação por renda, enquanto a
segunda é uma segmentação por papel ou função na dinâmica econômico-política.
Via de regra, porém, a classe média abarca os setores mais bem renumerados do
operariado, mais os pequenos burgueses. São, então, os operários mais
especializados e os trabalhadores melhor posicionados no setor de comércio e
serviços, mais os donos de pequenos estabelecimentos comerciais, os
profissionais liberais, os funcionários públicos e pequenos empresários do ramo
dos serviços (posso ter esquecido algum setor, mas já dá uma ideia).
Em suma, classe média somos todos nós que possuímos um pouco
mais do que apenas o que dá para sobreviver, mas que não podemos nos dar ao
luxo de deixar de trabalhar. Para não ter erro, qualquer um que já se sentiu
feliz ou esperto por comprar em liquidação um produto dispensável (um pacote
turístico, uma passagem aérea, uma roupa de festa, etc.) é classe média. Porque
a classe baixa faz questão de pagar o preço cobrado pelas mercadorias quando
pode, enfim, realizar uma compra supérflua, e a classe alta está mais atenta às
flutuações do mercado financeiro do que às do varejo.
A polêmica Marilena Chauí-Lula se deu justamente porque a
filósofa diz em determinado momento da sua palestra: “eu odeio a classe média”,
enquanto Lula, num de seus discursos ainda como presidente, na sua habitual
retórica de chão de fábrica, disse: “eu esperei tanto tempo para ser classe
média e agora as pessoas vem dizer que isto é ruim”.
Esse é o ponto. Lula não foi capaz de oferecer aos pequenos
burgueses brasileiros um “modo de vida”. Não foi capaz de formar opinião. Não
foi capaz de se comunicar com essa massa que não é numericamente marjoritária
no Brasil, mas que é quem a gente de fato encontra de banho tomado nas ruas dos
bairros com pavimentação e saneamento, nos cafés e nas timelines. Quando ascendeu socialmente, ao invés de se comunicar
com a pequena burguesia ajudando-a a construir valores, como um Mujica, como um
Olívio Dutra, como um Cristóvão Buarque ou uma Marina Silva. Os dois últimos
são políticos que não levam o meu voto, mas que aportaram discursos no campo da
ética, da cultura, dos modos de viver. Lula nunca disse nada que não fosse
estritamente ligado ao poder de consumo e isso foi absolutamente coerente com a
sua vida pessoal: churrascada com os amigos, futebol, cerveja no isopor, etc..
Lula pode ter ascendido economicamente, até além da classe média, já que fez
fortuna com palestras a 400 mil, seguindo a pista deixada por outros
ex-presidentes. Mas Lula não ascendeu socialmente do ponto de vista da
compreensão do seu papel na dinâmica de classes. Nem Lula emancipou o
operariado abolindo o trabalho alienado como o socialismo pretende, tão somente
aproximou o operariado do crédito e do consumo. Nem conseguiu representar os
pequenos burgueses. Seu trabalho de maior relevância foi justamente com o lupenproletariado,
isto é, aqueles que não tinham nem emprego e nem empregabilidade, nem saúde e
nem alimentação. Foi aí que sua política foi mais eficaz, na proteção social e
alimentar, nunca abordada com seriedade no Brasil dos coronéis.
Quanto aos capitalistas, estes ganham sempre. Sua conta não
é de ganhar ou perder, mas a de ganhar muito ou ganhar exorbitantemente.
Ganharam muito com Lula, mas sonham que podem exorbitar mesmo com um governo
neoliberal que queira privatizar o que ainda restou após a privataria tucana.
E é esse o preço que tem sido cobrado dele. A classe média,
mesmo tendo sido economicamente beneficiada por Lula, já que o aumento do
consumo pela classe C acabou indiretamente aumentando a sua riqueza, não tolera
que Lula tenha se tornado uma figura de destaque mundial, o “cara” do Obama, o
amigo do Bono Vox, um líder da estatura de Mandela ou de uma Madre Teresa. A melhor síntese da repulsa que os pequeno
burgueses sentem de Lula foi dada por Caetano Veloso: “Lula não sabe falar. É um analfabeto”. Lula
não fala aquilo que os pequenos burgueses querem ouvir. Quando vai ao
microfone, insiste em falar da ascensão econômica da classe C. Nada diz
sobre gestão, nada diz sobre
meritocracia, nada diz sobre enxugamento do Estado. Não fala a linguagem que a
mídia, setor no qual a pequena burguesia se faz ouvir, diz ser a correta.
O que nós tentamos execrar imolando Lula em praça pública, é
o fantasma da vida banal. Para os burgueses a vida do pobre é banal, tomada do
início ao fim por trabalhar, comer, trepar e dormir. Nossa luta é tentar fazer
das coisas que o capitalismo pode oferecer (turismo, foto no instagram, selfie com biquinho, tênis com amortecedor,
corpo de academia, corpo de praia) algo que faça a vida valer a pena. E para
isso precisamos de ilusões como gestão eficiente do Estado: quando o Estado for
eficiente e pagarmos menos impostos, teremos, enfim, tempo para aproveitar tudo
o que o nosso trabalho permite e vamos tirar selfies na frente de cada monumento famoso do mundo! Quando a
meritocracia imperar e acabarem as cotas, então seremos reconhecidos na nossa
genialidade e nossos posts no facebook serão muito curtidos, e seremos
invejados por todos os vizinhos e todos os ex-colegas de colégio!
Para isso precisamos de um representante que saiba falar.
Não um que não tenha metas, mas queira dobra as metas quando as atingir. Não um
que seja analfabeto. Precisamos de um líder que mantenha brilhante esse verniz
que a cultura pinta sobre o cotidiano e que nos impede de ver que não são
apenas os pobres, mas a rigor nós também não fazemos muito mais do que
trabalhar, comer, trepar e dormir. Sem esse verniz que é a formação de opinião,
seríamos relegados a conversar sobre o clima ou teríamos, enfim, de encarar o
fato de que na dinâmica social e econômica em que vivemos, a grande diferença
está entre aqueles que trabalham: operários e pequenos burgueses, e aqueles que
não trabalham: lumpenproletariado e capitalistas. E que nós estamos presos
entre a tentativa de não cairmos na indigência dos lumpen e na ilusão
inalcançável do gozo irrestrito dos capitalistas. O que a burguesia faria se
confrontasse a realidade cruel de que ela está mais próxima do operariado do
que do capitalista? É isso que Lula nos lembra a cada vez que sua língua presa
fala “nunca antes na história desse país”. E por isso não será perdoado.
Marilena Chauí - sobre a classe média
https://www.youtube.com/watch?v=9RbBPVPybpY
Marilena Chauí - "eu odeio a classe média"
https://www.youtube.com/watch?v=fdDCBC4DwDg