O silêncio das redes sociais é avassalador. Suportá-lo exige
sabedoria. Os momentos frente a uma caixa de postagem , aquele kairós – o instante do gesto
irreversível – intrínseco ao botão de confirmar a postagem precisa ser
respeitado. Um fato surpreendente aconteceu na última quarta-feira quando Luciana
Genro, que foi candidata à presidência pelo PSOL em 2014, fez uma série de
postagens, numa delas defendendo a antecipação das eleições presidenciais para
2016. Uma bobagem colossal que joga na lata do lixo o desempenho brilhante que
ela teve no ano passado e que fez muita gente parar para pensar, mesmo que não a
tenham confiado com o voto. E ela não é a única. Quantas pessoas não perderam
emprego, amigos ou reputação por um gesto precipitado, impensado, infrutífero
na internet? Um gesto de quem não
sopesou a consequência da palavra pública. Esse, aliás, é um tema que merece
reflexão. Como a palavra circula publicamente nestes tempos de redes sociais?
Em um passado recente eu assumi uma posição militante no Facebook, no sentido de amplificar
certas informações que eu sabia serem sonegadas pela grande mídia.
Principalmente fatos e informações referentes aos políticos dos partidos
apoiados pela Rede Globo, pelo Grupo Bandeirantes e pelo Grupo Abril, que são
os grandes formadores de opinião no nosso contexto nacional, ainda que em
crescente descrédito. Eu acreditava que poderia estar “ajudando” algumas pessoas
que me seguiam na rede social a ter mais informação e que este aumento no seu
repertório informacional os permitiria tomar decisões partindo de um julgamento
mais sofisticado da realidade e não meramente pela manipulação emocional e pela
alienação estimuladas pela grande mídia.
Mas nesse movimento eu também me vi por vezes compartilhando
informações que depois se mostraram infundadas e tive, eu mesmo, de melhorar
meus critérios de quando confiar no conteúdo.
Certos sites excessivamente (porque um pouco quase todos são)
financiados pelo governo trabalham numa perspectiva pouco rigorosa de alardear
fogo em qualquer fumaça e isso não favorece nem mesmo o campo da esquerda.
Quando você não tem o renome de ser confiável - como o Jornal Nacional, por
exemplo, que vem utilizando esse renome justamente para poder ser o contrário -
você tem que redobrar o cuidado com a sua informação. Alguns sites não tomam
este cuidado. Se eu tivesse parado e refletido um pouco antes de compartilhar,
teria provavelmente me poupado do arrependimento.
Em outras oportunidades, contudo, a razão do equívoco não
foi a ignorância ou o desconhecimento. Mas algo mais íntimo, mais difícil de
domar, uma urgência, uma angústia, algo que se move lá do fundo e que pede para
ser expresso e que fez com que eu por diversas vezes sentisse a necessidade de
escrever algo, em geral críticas ao campo da direita ou do oportunismo político
- que não é nem direita e nem esquerda propriamente, mas pura malandragem
eleitoral para distribuir benefícios financeiros entre poucos, como é o caso do
PMDB no Rio Grande do Sul e no Brasil, os últimos acontecimentos que o digam.
Não que eu considerasse que escrevi algo errado. É que
ficava uma pergunta: - Será que era mesmo necessário eu ter dito isso?
Essa compreensão de que a palavra pública não pode responder
apenas a uma necessidade interna, mas que ela tem que se fazer útil aos outros,
à coletividade, é algo que a internet vem apagando. Os fóruns, as redes
sociais, as caixas de comentário. O que as pessoas escrevem nesses lugares?
Será que é realmente algo que se dirige ao outro ou é pura verborragia? Vômito
de opiniões no meio do passeio público?
Uma das coisas mais interessantes da leitura do curso “A
hermenêutica do sujeito”, que Foucault proferiu em1982 é a sua descrição das
relações entre o exercício democrático e a prática filosófica. A democracia
ateniense na Grécia aconteceu de maneira inextrincavelmente articulada ao
exercício filosófico dos seus cidadãos, ou seja, decidir sobre os destinos da
polis era algo que se fazia ao mesmo tempo e de maneira imbricada com a
permanente reflexão sobre o sujeito, reflexão ética ou
ético-político-filosófica, portanto.
Nesse sentido, para que um
sujeito falasse nas assembleias, para que ele se pronunciasse na Àgora, era
esperado que ele tivesse realizado uma série de “exercícios sobre si”, um
processo que eles chamavam de paraskeué e que consistia tanto em saber sobre o mundo,
estar informado sobre ele, sobre seus aspectos objetivos (mathesis), como em fazer um
exercício de autoconhecimento, de renúncia, de controle das paixões (akesis ou ascese) que permitiria
transformar o conhecimento (logoi) em
um modo de ser (ethos). É nesse contexto que Sócrates colocou sua
filosofia a serviço dos cidadãos, ajudando-os a se interrogarem permanentemente
sobre o destino que eles estavam dando as suas vidas. Na sua peripatética – caminhadas que ele realizava
com seus discípulos nos campos que circundavam Atenas – Sócrates buscava desestabilizar as crenças que
conduziam a vida pública dos promissores jovens atenienses, os quais viriam a
ter importância nas assembleias, como foi o caso de Alcebíades, muito comentado
por Foucault nesse curso.
Isso ajuda a esclarecer não o conceito, mas o funcionamento
da democracia ateniense. Era o modo de governo em que qualquer um (homem e
cidadão ateniense) poderia defender opiniões e votar. Mas o modo como
funcionavam os debates e a votação era atravessado por uma série de regras e de
normas tácitas de comportamento que se pautavam por um valor mais amplo que
podemos chamar de sabedoria ou instrução (instructio era a palavra que Sêneca utilizava para se referir à paraskeué). Era esperado que as pessoas
que falavam em público e que construíssem os consensos ou os dissensos fossem
pessoas sábias, capazes de controlar os impulsos, de saber ouvir – o que era
condição necessária para saber falar. Enfim, pessoas que tivessem se colocado
numa posição de aprendizagem contínua e não como pragmáticos movidos por
interesses.
Os anos de tirania que vieram com o declino helênico e com a
Idade Média e depois esse período de democracia representativa que estamos
vivendo produziram uma separação entre as dimensões política e filosófica.
Votar em governantes e defender posições a respeito de temas públicos
tornaram-se atividades que passamos a fazer de maneira independente e mesmo
afastada das reflexões sobre nós mesmos e sobre nossas vidas. Essas questões de ordem “privada” as
endereçamos ao psicólogo, ao padre ou as abafamos com medicamentos. Não são
questões que associamos com a vida coletiva. Nesse contexto, a conversa nas
redes sociais, por mais que trate de temas
políticos parece ter perdido um caráter político,
já que ali não há mais escuta, consideração sobre a posição do outro, interesse
em construir juntos uma vida mais interessante. Há apenas defesa surda de
pontos- de -vista, quando não apenas a defesa de interesses rasteiros e
narcísicos: o meu emprego, o meu imposto, a minha segurança, a minha
propriedade, etc.
Eu acabei mudando minha relação com as redes sociais. Esse
blog já é uma consequência disso. Principalmente porque percebi que não é
informação, apenas, o que faz falta na vida das pessoas. Faltam espaços de
reflexão em que as opiniões possam ficar um pouco em suspenso e em que possamos
deixar respirar outras Inteligências, outras sensibilidades que nos ajudem a olhar
para a vida de modo diferente. Buscar informar-se sobre outras perspectiva que
não aquelas que convêm aos “barões da
mídia” vem como uma consequência disso.
Vamos descobrindo que o espaço público sem a experiência dos
espaços grupais, das frater, do
espaço da amizade no qual as opiniões, assim como outras sensibilidades podem
ser ensaiadas no sentido de
colocarmo-nos no caminho da instructio ou
da paraskeué , carece de potência e
se torna uma câmara de eco que devolve apenas a própria voz desesperada do
falante.