12/12/2015

Peripatética on line

O silêncio das redes sociais é avassalador. Suportá-lo exige sabedoria. Os momentos frente a uma caixa de postagem , aquele kairós – o instante do gesto irreversível – intrínseco ao botão de confirmar a postagem precisa ser respeitado. Um fato surpreendente aconteceu na última quarta-feira quando Luciana Genro, que foi candidata à presidência pelo PSOL em 2014, fez uma série de postagens, numa delas defendendo a antecipação das eleições presidenciais para 2016. Uma bobagem colossal que joga na lata do lixo o desempenho brilhante que ela teve no ano passado e que fez muita gente parar para pensar, mesmo que não a tenham confiado com o voto. E ela não é a única. Quantas pessoas não perderam emprego, amigos ou reputação por um gesto precipitado, impensado, infrutífero na internet?  Um gesto de quem não sopesou a consequência da palavra pública. Esse, aliás, é um tema que merece reflexão. Como a palavra circula publicamente nestes tempos de redes sociais?
Em um passado recente eu assumi uma posição militante no Facebook, no sentido de amplificar certas informações que eu sabia serem sonegadas pela grande mídia. Principalmente fatos e informações referentes aos políticos dos partidos apoiados pela Rede Globo, pelo Grupo Bandeirantes e pelo Grupo Abril, que são os grandes formadores de opinião no nosso contexto nacional, ainda que em crescente descrédito. Eu acreditava que poderia estar “ajudando” algumas pessoas que me seguiam na rede social a ter mais informação e que este aumento no seu repertório informacional os permitiria tomar decisões partindo de um julgamento mais sofisticado da realidade e não meramente pela manipulação emocional e pela alienação estimuladas pela grande mídia.
Mas nesse movimento eu também me vi por vezes compartilhando informações que depois se mostraram infundadas e tive, eu mesmo, de melhorar meus critérios de quando confiar no conteúdo.  Certos sites excessivamente (porque um pouco quase todos são) financiados pelo governo trabalham numa perspectiva pouco rigorosa de alardear fogo em qualquer fumaça e isso não favorece nem mesmo o campo da esquerda. Quando você não tem o renome de ser confiável - como o Jornal Nacional, por exemplo, que vem utilizando esse renome justamente para poder ser o contrário - você tem que redobrar o cuidado com a sua informação. Alguns sites não tomam este cuidado. Se eu tivesse parado e refletido um pouco antes de compartilhar, teria provavelmente me poupado do arrependimento.
Em outras oportunidades, contudo, a razão do equívoco não foi a ignorância ou o desconhecimento. Mas algo mais íntimo, mais difícil de domar, uma urgência, uma angústia, algo que se move lá do fundo e que pede para ser expresso e que fez com que eu por diversas vezes sentisse a necessidade de escrever algo, em geral críticas ao campo da direita ou do oportunismo político - que não é nem direita e nem esquerda propriamente, mas pura malandragem eleitoral para distribuir benefícios financeiros entre poucos, como é o caso do PMDB no Rio Grande do Sul e no Brasil, os últimos acontecimentos que o digam.
Não que eu considerasse que escrevi algo errado. É que ficava uma pergunta: - Será que era mesmo necessário eu ter dito isso?
Essa compreensão de que a palavra pública não pode responder apenas a uma necessidade interna, mas que ela tem que se fazer útil aos outros, à coletividade, é algo que a internet vem apagando. Os fóruns, as redes sociais, as caixas de comentário. O que as pessoas escrevem nesses lugares? Será que é realmente algo que se dirige ao outro ou é pura verborragia? Vômito de opiniões no meio do passeio público?
Uma das coisas mais interessantes da leitura do curso “A hermenêutica do sujeito”, que Foucault proferiu em1982 é a sua descrição das relações entre o exercício democrático e a prática filosófica. A democracia ateniense na Grécia aconteceu de maneira inextrincavelmente articulada ao exercício filosófico dos seus cidadãos, ou seja, decidir sobre os destinos da polis era algo que se fazia ao mesmo tempo e de maneira imbricada com a permanente reflexão sobre o sujeito, reflexão ética ou ético-político-filosófica, portanto.  Nesse  sentido, para que um sujeito falasse nas assembleias, para que ele se pronunciasse na Àgora, era esperado que ele tivesse realizado uma série de “exercícios sobre si”, um processo que eles chamavam de paraskeué  e que consistia tanto em saber sobre o mundo, estar informado sobre ele, sobre seus aspectos objetivos (mathesis), como  em fazer um exercício de autoconhecimento, de renúncia, de controle das paixões (akesis ou ascese) que permitiria transformar o conhecimento (logoi) em um modo de ser (ethos).  É nesse contexto que Sócrates colocou sua filosofia a serviço dos cidadãos, ajudando-os a se interrogarem permanentemente sobre o destino que eles estavam dando as suas vidas. Na sua peripatética – caminhadas que ele realizava com seus discípulos nos campos que circundavam Atenas – Sócrates  buscava desestabilizar as crenças que conduziam a vida pública dos promissores jovens atenienses, os quais viriam a ter importância nas assembleias, como foi o caso de Alcebíades, muito comentado por Foucault nesse curso.
Isso ajuda a esclarecer não o conceito, mas o funcionamento da democracia ateniense. Era o modo de governo em que qualquer um (homem e cidadão ateniense) poderia defender opiniões e votar. Mas o modo como funcionavam os debates e a votação era atravessado por uma série de regras e de normas tácitas de comportamento que se pautavam por um valor mais amplo que podemos chamar de sabedoria ou instrução (instructio era a palavra que Sêneca utilizava para se referir à paraskeué). Era esperado que as pessoas que falavam em público e que construíssem os consensos ou os dissensos fossem pessoas sábias, capazes de controlar os impulsos, de saber ouvir – o que era condição necessária para saber falar. Enfim, pessoas que tivessem se colocado numa posição de aprendizagem contínua e não como pragmáticos movidos por interesses.
Os anos de tirania que vieram com o declino helênico e com a Idade Média e depois esse período de democracia representativa que estamos vivendo produziram uma separação entre as dimensões política e filosófica. Votar em governantes e defender posições a respeito de temas públicos tornaram-se atividades que passamos a fazer de maneira independente e mesmo afastada das reflexões sobre nós mesmos e sobre nossas  vidas. Essas questões de ordem “privada” as endereçamos ao psicólogo, ao padre ou as abafamos com medicamentos. Não são questões que associamos com a vida coletiva. Nesse contexto, a conversa nas redes sociais, por mais que trate de temas políticos parece ter perdido um caráter político, já que ali não há mais escuta, consideração sobre a posição do outro, interesse em construir juntos uma vida mais interessante. Há apenas defesa surda de pontos- de -vista, quando não apenas a defesa de interesses rasteiros e narcísicos: o meu emprego, o meu imposto, a minha segurança, a minha propriedade, etc.
Eu acabei mudando minha relação com as redes sociais. Esse blog já é uma consequência disso. Principalmente porque percebi que não é informação, apenas, o que faz falta na vida das pessoas. Faltam espaços de reflexão em que as opiniões possam ficar um pouco em suspenso e em que possamos deixar respirar outras Inteligências, outras sensibilidades que nos ajudem a olhar para a vida de modo diferente. Buscar informar-se sobre outras perspectiva que não  aquelas que convêm aos “barões da mídia” vem como uma consequência disso.
Vamos descobrindo que o espaço público sem a experiência dos espaços grupais, das frater, do espaço da amizade no qual as opiniões, assim como outras sensibilidades podem ser ensaiadas  no sentido de colocarmo-nos no caminho da instructio ou da paraskeué , carece de potência e se torna uma câmara de eco que devolve apenas a própria voz desesperada do falante.

12/04/2015

Os intelectuais e o lado negro da força


Eu lembrei recentemente de um fato curioso da minha infância. Nos idos dos anos 80, eu tinha por volta de uns 10 anos e, consequentemente, meus pais já iam pelos 30 e poucos, ou seja, menos idade do que eu tenho hoje - curiosa precessão do eixo geracional.  Naquela época minha mãe e meu padrasto tinham um círculo de amizades muito ligado ao meio artístico, ele tinha sido diretor do Auditório Araújo Vianna por alguns anos. Na convivência com aquele grupo, me chamava a atenção uma das pessoas que trabalhava no Araújo. Sempre de preto. Maquiava os olhos de preto, usava uma touca preta, e coturnos pretos, etc.. Um dia eu perguntei para a minha mãe: "Por que ele se veste assim?". E a minha mãe respondeu: "Porque ele é dark". Na época não se chamava de gótico. E eu, logicamente, na multiplicação dos porquês: "O que é dark". E ela respondeu: "São pessoas que estão tristes". Eu lembro que  fiquei insatisfeito com essa resposta, porque ele não me parecia uma pessoa triste. Ele era sempre sorridente para mim. E eu via-o rindo com os amigos quando faziam roda para compartilhar um cigarro enrolado*.

Atualmente, as aparências têm me enganado de uma maneira ao mesmo tempo similar e diferente àquela da minha infância.  Eu vejo alguns rapagões tatuados, de calça puída, camisa de banda, e outras bossas, tudo indicando aquilo que na minha adolescência apontava para uma pessoa interessante, no mínimo, porque não estava plenamente confortável com a norma, com o senso comum, com o bom senso. Sem querer romantizar a juventude transviada do passado que, sem dúvida, também era machista, homofóbica, bairrista entre outros conservadorismos. Pelo menos, aquela geração, em algum campo da vida, tinha encontrado uma luta para ser lutada: contra o governo, contra o poperô** (só quem já dançava no final dos 80 vai entender), contra a dominação cultural norte-americana, etc. O que vejo por trás da aparência roqueira e outras estéticas juvenis contemporâneas - vale também para as barbas e suspensórios hipsters - é que frequentemente não há enfrentamento algum; apenas inscrição grupal, registro identitário. Como se a aparência física e o vestuário não tivessem significado maior que o avatar de perfil de uma rede social virtual. São jovens que poderiam facilmente estar segurando o tchan ou dançando na boquinha da garrafa com suas botas de bico fino e calças justas.

Remetendo essa problemática para o campo em que eu tenho atuado, lembrei-me de um texto chamado "Os intelectuais e o poder". Uma conversa entre dois grandes pensadores, Michel Foucualt e Gilles Deleuze, a propósito das relações entre aquilo que eles faziam -  produzir pensamento, ensinar, escrever livros, dar conferências - com o Estado e suas seduções conservadoras, por um lado, e, por outro, a revolução e suas adesões incondicionais. Qual o lugar de um pensador?  Qual sua função dentro das lutas que não são mais apenas contra a exploração, mas também contra os abusos dessa coisa mais difusa e mais intercambiável que é o poder? Ou seja, qual o lugar do intelectual frente às relações de coerção, mas também de incitação e de condução, enfim, de movimento sobre o movimento, de ação sobre a ação, exercidas não apenas no contexto do patrão e do empregado, das classes dominantes e dos explorados, mas no nosso cotidiano familiar, conjugal, de trabalho, do trânsito, da circulação nas cidades. Enfim, em todos os espaços em que certas condutas sejam mais convenientes que outras e em que a escolha por essa conduta mais desejável deva ser conquistada, não ao preço exclusivo da força bruta que caracteriza a exploração ou a dominação, mas das tecnologias mais sutis que caracterizam o poder e que não pertencem de direito a ninguém, sendo exercidas de fato por qualquer um que as circunstâncias ensejarem.

 É aqui que o intelectual pode estar com uma aparência, uma estética libertária, anticapitalista, contra-dominante, mas no conforto de sua inscrição grupal, efetivar práticas que de modo algum confrontem as estruturas que lhe conferem essa posição social. Isto é, no dia-a-dia, o intelectual, a despeito dos conceitos com que ele trabalha, dos autores que lhe acompanham, da sua posição na roda-dos-ventos da política, age como o patrão, como o presidente, como o diretor, enfim, como o chefe.

Em outro texto, "O tratado de nomadologia", Deleuze, junto com Guattari, escreveu que o intelectual é sempre acossado pela sedução de tornar-se um "pensador de Estado", alguém que oferece suas produções de pensamento, seus discursos, para reforçar essa estrutura conservadora e hierarquizante que é o Estado e que tem essa capacidade ressonante de fazer com que os poderes locais, cotidianos, isto é, o poder na escola, na família, no trabalho, na cidade, etc.;  sejam alinhados ao seu princípio racionalizador e a sua lógica representacional (sempre falando em nome de alguém).

Nesse sentido, precisamos colocar em análise os modos como nos posicionamos nessas circunstâncias que permitem que um professor, um escritor, um cronista, um jornalista, um formador de opinião pública fale em nome de alguém.  E é preciso não falar em nome dos outros, Deleuze e Foucault alertaram-nos. É preciso ter a capacidade de colocarmo-nos ao lado dos coletivos nas suas lutas e não na retaguarda. E colocar-se ao lado nas lutas significa também que não se pode chegar a vencer completamente nenhuma luta, pois as lutas se proliferam durante o lutar e não se deixam totalizar numa grande e unificadora vitória. Assim a luta de classes se desdobra na luta por reparação pela injustiça racial, e esta se desdobra na luta feminista, e esta frequenta, porém não se resume à luta de gênero, Porque as lutas também se embatem entre si. O multiverso das forças sociais, diferentemente das teorias não trabalha numa lógica concêntrica, mas também excêntrica, por vezes, até numa lógica de confronto.

Essa insistência do não resolvível, de um primado das forças sobre as formas, para trabalhar num vocabulário nietzschiano, de alguma maneira, faz com que a posição do intelectual me pareça ter a ver com a tristeza do dark  - aquela que na minha infância eu não consegui compreender. Uma tristeza que não é da ordem do humor, mas da política e que, portanto, não se opõe à alegria, e, sim, ao contentamento. A tristeza como o horizonte de uma luta permanente, em oposição ao contentamento como a antecipação da vitória.

Afinal, é isso que o capitalismo produz. Faz de toda a alegria uma mera antecipação, desfrute emprestado de uma vitória nunca alcançada. Todo objeto consumido é apenas um objeto parcial que permite o vislumbre da alegria que teremos quando de fato tivermos dinheiro para comprar tudo aquilo que queremos. Toda a conquista profissional é apenas um pálido reflexo daquela conquista que de fato será importante. Todo amor é apenas o ensaio de um amor mais-que-perfeito, e assim por diante.



Antídoto contra essa antecipação, a tristeza política (não a do humor) é, paradoxalmente, tal como o Bóson de Higgs que dá massa à matéria, aquilo que dá gravidade à nossa alegria e espanta seu caráter frívolo. Só pode ser verdadeiramente alegre aquele que se deixa habitar por essa tristeza.



Em outras palavras, desconfie de um intelectual contente.






*Licença poética. Os cigarros enrolados não eram fumados na minha frente.



** Hey, pump the jam, pump it up (poperô). Refrão da música da banda Techotronic que explodiu o bate-estaca nas pistas brasileiras.

p.s.: Muitas pessoas comentaram que acharam os meus textos anteriores “pesados”. Então resolvi escrever essa pluma de plomo.