11/17/2016

Estética do Grito



Nos idos dos anos 90 eu morava ao lado de um morro que não deixava chegar o sinal de televisão. Imagem com chuvisco. Jogo de futebol com 44 jogadores em campo. Bombril na ponta da antena. Se alguém espirrasse de um lado da sala já se ia a imagem.  Até que chegou uma antena parabólica lá em casa e foi como se as portas da percepção tivessem sido escancaradas: agora era possível ver canal de leilão de joias caríssimas; ou de venda de produtos para prática de abdominais; ou de facas que cortavam arame; ou de qualquer noticiário regional do Brasil e até de outros países sul americanos. Tudo isso com a imagem límpida que só uma antena enorme apontada para um satélite orbital poderia fornecer.

Mas dessas edificantes experiências, nunca vou me esquecer da primeira vez que assisti ao programa do Carlos Massa, que ainda não tinha ficado conhecido como Ratinho, numa emissora que transmitia para o Paraná. Eu lembro de ter pensado imediatamente: “é possível gritar assim na televisão?”. Ele caminhava para frente e para trás, chutava a bancada no centro do auditório cinza e gritava, vociferava, berrava qualquer coisa sem muita importância, o importante é que ele dizia estas coisas muito, muito alto. A estética televisiva até então não permitia as ações exacerbadas. A televisão amplifica tudo, bem o sabem os profissionais do ramo. Os gestos até então eram comedidos, assim como os tons de voz. Eu pensei: “deve ter acontecido algo muito relevante, hoje, para ele estar assim. Certamente voltará ao normal nos próximos programas”. Mas esse era o normal para ele. E foi assim durante alguns dias em que eu observava aquele fenômeno que a imagem sem fronteiras me proporcionava. O que eu não sabia era que esse passaria a ser “O” normal para a comunicação em geral.

Outra característica desse programa que me espantou era a relação com as filmagens. Ele apontava para um telão que ficava no palco e mandava, sim, ordenava que os telespectadores vissem algo que ele achava importante: “Olha isso! Olha isso! Olha isso!”. Muitas repetições. “Tô olhando. Claro! Como não? Mas por quê? O que houve?”, eu pensava. Era a cena de um sujeito algemado. Ou de um carro acidentado. Ou de uma construção em ruínas. O que tinha acontecido? Por que o homem foi preso? Alguém se machucou no acidente? Ou no desabamento? O que de fato aconteceu? Quais as versões que as pessoas têm a dizer sobre o que a imagem mostrava. Mas, depois de mostrar aquilo, ele cortava direto para outra imagem a ser olhada peremptoriamente e depois cortava para ele gritar o ABSURDO daquela situação que os políticos sem-vergonha, ou falta de vergonha na cara, ou a falta de laço tinha, ou os direitos humanos tinham criado! 

O que se inaugurava ali e que eu ainda não sabia era que não era mais necessária a interpretação, a narratividade, as múltiplas versões, a ponderação do contraditório. As imagens agora vinham acompanhadas de uma legenda que apontavam sempre para os mesmos culpados: os políticos, os direitos humanos, os vagabundos ou as famílias complacentes que não educavam com rigor os filhos. Nunca o desemprego, a fome, a injustiça, o rentismo, etc..  À base do grito, foram-se colando nas imagens um sentido emergencial que tem como objetivo exacerbar o sentimento de frustração e de impotência do cidadão médio, com vistas a deixá-lo sempre em situação de estar prestes a aderir a qualquer solução violenta e definitiva em relação ao inaceitável. Grita o apresentador do programa e gritam também as imagens que não desviam do sangue, da mutilação; que perseguem o choro, a humilhação, a agressividade. Devassado por clamores e por hipérboles o cidadão médio não tem tempo de refletir, de sopesar os fatos, de escolher. Ficar parado é ser cúmplice. Então qualquer solução drástica – o linchamento, a intervenção militar, o populismo penal, a supressão de direitos – deve ser aceita, pois é melhor do que não fazer nada diante do ABSURDO e dessa vergonheira e dessa cafajestada toda que está aí!

Daí vieram os smartphones e agora não precisamos de toda a expertise do Carlos Massa e dos seus sucedâneos. Agora cada um de nós pode apontar uma câmera e publicar no twitter ou no facebook  nossa indignação com qualquer coisa que consideremos intolerável: do sujeito que estaciona na vaga de deficientes ao pobre de chinelo na poltrona ao lado do avião; da pessoa que bate no animalzinho de estimação ao produto vendido com validade vencida. E não importa nossas razões, mesmo que as tenhamos, a imagem já diz suficientemente. Não importam versões, interpretações ou confrontações de pontos de vista. Podemos jogar a imagem junto com nossas frases de ódio e pronto. O mundo estará mudando para melhor, porque não fomos passivos frente ao absurdo.

É nesse contexto que um sujeito se arvora o direito de pegar um megafone e sair gritando (sim, gritando com um megafone) no ouvido de uma deputada com a qual ele discorda das opiniões. Outro momento em que eu senti que estava vivenciando um ponto de irreversibilidade no âmbito do normal foi quando eu assisti ao vídeo gravado pelo Marcel Van Hattem, antes de ele ter sido eleito deputado estadual – e provavelmente por isso – quando ele acossou a deputada federal Maria do Rosário no Brique da Redenção, aos berros de “Defensora de bandido!”; fazendo com que ela tivesse de deixar a atividade de campanha que ela realizava. Era o prenuncio do tempo dos esculachos. Houve muitos outros, nenhum me pareceu tão violento, pois ele estava gritando com um megafone no ouvido dela! Mas provaram da estética do grito Guido Mantega, Chico Buarque, Eduardo Cunha e até Michel Temer. O cidadão médio aponta a câmera e manda ver seus impropérios, pois há um senso de legitimidade moral que o faz sentir livre para agir dessa forma. Ele não precisa se explicar ou arrazoar sua ação, a obviedade está ao seu lado. Está tudo aí. Só não vê quem não quer. Esse é o pensamento sub-reptício do esculachador. Ele não considera que o outro tenha um ponto de vista legítimo e que lhe caiba convencer, argumentar ou defender a sua opinião.

Pois eu não poderia supor que o deputado Van Hattem quisesse expandir seu método de atuação para as salas  de aula. Seu projeto Escola Sem Partido usa uma tática bastante espúria. De saída ele usa um nome que chama por consenso. A escola não deve mesmo ter partido. O problema do projeto do deputado esculachador é que a escola já não tem partido e ao nomeá-la assim, ele faz supor que a realidade é diferente e produz o senso de emergência que mobiliza os “cidadãos de bem”.  A escola já não tem partido por uma razão simples. Nas escolas públicas, os professores, servidores públicos, são proibidos estatutariamente de fazer proselitismo político-partidário no seu local de trabalho. Nas escolas privadas, se o fizerem, serão regulados pela lei de mercado. Se os pais decidirem que isso não convém à educação dos seus filhos, logo perderão seu emprego.

Mas o objetivo desse projeto, no fundo, não é combater esse fantasma, dado que ele não existe. O objetivo inconfessável é atingir um dos últimos espaços dialógicos da nossa formação cultural: a escola. Em tempos de redes sociais e de privatização dos espaços públicos a escola é o refúgio de uma arte em declínio: a conversa, o diálogo, a narratividade. Na escola se fala e se escuta. Isso, por si só, para além das já existentes barreiras legais para a partidarização desse espaço, já é uma garantia de não doutrinação. Os estudantes desenvolvem no espaço escolar um sentido de autonomia intelectual que os fazem capazes de submeter as informação ao seu crivo moral. Não são sujeitos incapazes de análise crítica. E em tempos nos quais um deputado se elege após constranger uma colega de profissão aos gritos de megafone, de fato, não interessa ter eleitores com senso crítico. Melhor tê-los apavorados, ressentidos, em estado de alerta, prontos a aderirem a qualquer projeto que se apresente como redentor, mesmo que este projeto não tenha bases sólidas.

Um dos mais tristes episódios dessa escalada da insanidade promovida por gente que é muito esperta e sabe o que está fazendo, como os defensores do projeto da Escola Com Mordaça, é a oferta de compra de gravações de momentos de sala de aula em que um professor esteja “doutrinando” seus alunos. Por valores que variavam de 50 a 150, um estudante em seu perfil do facebook , supostamente integrante do Movimento Brasil Livre, oferecia-se para comprar vídeos que iriam compor um documentário denunciando a atividade de professores “esquerdistas”.

Imaginem que tipo de relações pedagógicas se estabelecem no contexto da possibilidade de uma filmagem clandestina? Há algo a ser ganho pelas nossas salas de aula  com essa invasão da “estética do grito”? Justamente nesse espaço que é consagrado ao diálogo, à argumentação, à troca de saberes?

Bons argumentos continuam bons mesmo quando sussurrados. E a escola de que precisamos é a que nos ajuda a construí-los.

Eles não vão ganhar no grito!